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[Crise]
Cooperativa de reciclagem de Paulínia agoniza por falta de conscientização

Separação inadequada dos resíduos dentro de casa e escassez de investimentos públicos no setor resultam em grandes perdas de material

14 mai 2020 – 11h36
Cooperados trabalham com equipamentos de proteção individual e dividem os rendimentos (Foto: Divulgação)

Que a pandemia do novo coronovírus tem efeitos devastadores em todas as áreas da sociedade, isso não é segredo para ninguém. Mas um setor em especial perece ser afetado de forma mais intensa e silenciosa devido à falta histórica de investimentos e conscientização – o da reciclagem. De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), com as pessoas passando mais tempo em casa, os resíduos tendem a aumentar entre 15% e 25%, segundo estudo do final de abril.

Há praticamente dois meses, as autoridades brasileiras recomendam o isolamento social para conter o avanço da Covid-19, doença respiratória causada pelo novo coronavírus. Porém, o que antes era reaproveitado e enviado para a reciclagem corretamente, hoje se perde, muito pela falta de políticas públicas, como lamenta o presidente da Cooperativa de Reciclagem de Paulínia (Cooperlínia), fundada há 18 anos. José Carlos Silva conta que a equipe ficou em casa por mais de um mês e, voltando ao trabalho, sofre com a falta da separação adequada domiciliar, o que resulta em grandes perdas de material, que fatalmente, acaba no aterro.

Falta da separação adequada dentro das casas resulta em grandes perdas de material (Foto: Divulgação)

“Nossa vida sempre foi difícil porque, infelizmente, precisamos lutar para que os políticos se sensibilizem com a causa e se comprometam com educação ambiental e coleta seletiva, mas enfrentamos nosso pior momento. Estamos às vias de fechar e mandar todo mundo embora, por falta de material para trabalharmos com dignidade e por falta de apoio”, desabafa. Ele explica que a cooperativa, que conta com 25 pessoas, ficou parada para evitar contaminação e, nesse período, os resíduos recicláveis foram enviados para o Aterro Estre, e separados por uma máquina. Com o retorno às atividades, seguindo todos os protocolos de higiene, os cooperados sofrem com a qualidade dos materiais que chegam. “Precisamos do mínimo de separação correta dentro das casas, para que nosso serviço valha a pena. Quando o material chega para nós, está contaminado por resíduos orgânicos e perdemos tudo. Uma situação terrível. Não há o que separar.”

Silva conta que a cooperativa, que foi modelo de negócios e sustentabilidade e referência no Brasil, chegou a separar, em sua melhor época, 250 toneladas de resíduos por mês, com cerca de 20% de rejeito e oferecia dignidade para 42 famílias, há cerca de cinco anos. Recentemente estava trabalhando com metade desse número, segregando 130 toneladas por mês, dos quais quase 50% são perdidos devido à contaminação.

Lixeiras para separação dos resíduos estão distribuídas em algumas regiões da cidade (Foto: Divulgação)

Os cooperados trabalham com equipamentos de proteção individual, têm refeições e dividem os rendimentos, mas para isso precisam da matéria-prima. O que para muitos não serve mais, é dignidade para quem vive do lixo e movimenta uma cadeia milionária. Nesse momento de pandemia, atendem mais exigências de higiene, inclusive só manuseiam resíduos que ficam em “quarentena” em uma baia de recebimento por quatro dias, período considerado ideal que impede a possibilidade de contaminação da permanência do vírus nos materiais recicláveis.

“Vários setores vão precisar de ajuda para se reerguerem, principalmente o nosso, porque ainda falta muita responsabilidade dos cidadãos e os políticos. E para nos ajudar basta pouco, que o prefeito melhore a estrutura que já existe e reforce o trabalho de conscientização, levando a sério a questão. Enquanto isso não acontece, clamamos por ajuda imediata, porque não sabemos nem como pagar os rendimentos do próximo mês”, afirma Silva.

Cooperativa separa 130 toneladas por mês; desse total, quase metade vai para o aterro (Foto: Divulgação)

Dos últimos anos para cá, a Cooperlínia trabalhava com resíduos industriais e de condomínios, considerados de baixo rejeito, mas Silva conta que o descaso está tamanho que até os moradores dos residenciais começaram a relaxar na hora de separar. “Para isso também pedimos ajuda da Prefeitura para que possamos alcançar mais condomínios. Numa cidade com 70, atendemos apenas 10. Isso é muito ruim, não há incentivo de nenhuma parte”.

O Brasil é um dos poucos países onde a reciclagem de materiais não é considerada essencial. Com base em dados de 10 de abril, o Bureau of International Recycling  (BIR), que representa cerca de 30 mil recicladores em mais de 70 países em todo o mundo, divulgou estudo, no qual mostra globalmente onde a atividade de reciclagem foi considerada essencial neste período de pandemia da Covid-19.

Descaso

Conforme a entidade, países como a China, EUA, Itália, Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Bélgica, Canadá e Chile autorizaram a operação das empresas que coletam, classificam e processam materiais recicláveis, por considerá-la essencial para proteger a saúde humana e o meio ambiente. O Brasil é um dos poucos, entre os países membros do BIR, onde essa atividade continua sendo considerada não essencial, embora tenha uma das maiores cadeias de reciclagem de materiais do mundo.

“Lamentamos essa situação de descaso estrutural, onde quem quer fazer alguma coisa, luta praticamente sozinho. É muito triste porque penso muito nas famílias que vivem dignamente numa estrutura. Muitos fugiram da situação de catadores de rua, agora imaginem o retrocesso que vivemos”, diz o presidente da Cooperlínia Ambiental do Brasil.

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